Todos são os nossos

(Portuguese only)

 

 

Cada um que chegava não continha a surpresa: “Bolas, isto é mesmo à séria!”. “Isto tudo?!”. “Está delicioso!”. A comida, ainda mais a típica comida portuguesa, tem este efeito sobre as pessoas. Cada aroma que se desvendava disparavam-se as tiradas: “Mas o que estás a fazer agora?”. O “chef”, e anfitrião da casa, não se deixava envaidecer. É costume fazer as delícias de quem com ele partilha as horas das refeições. De quem com ele partilha o dia-a-dia, na verdade. E a ementa não era qualquer coisa: meia dúzia de entradas, entre petiscos e iguarias da terra; as tradicionais saladas (a de polvo ou a punheta de bacalhau); uma massada de peixe, que ainda hoje faz crescer água na boca; e, claro, uma variedade de doces (mousse de chocolate, de maracujá e alguns quitutes da terra), porque o açúcar adoça a vida.


Mas voltamos aos convidados. Aos poucos foram chegando, um a um, aos pares, alguns atrasados, outros já ansiosos desde cedo. O dia era especial. Mais especial ainda para quem, como nós, vive fora do país e encontra nestes almoços – nestes encontros – o conforto da família que está longe, dos amigos que nos rompem as saudades, dos momentos vividos noutros lugares, com outras pessoas, mas que ali e agora se transportam para à volta de uma mesa, entre sorrisos e gargalhadas não menos cúmplices que as de casa.


Saem as primeiras travessas da cozinha. Lindas, cuidadosamente preparadas, coloridas. Os sorrisos espalham-se, a conversa anima. Contam-se histórias de outros tempos, aqueles em que estávamos em casa com os nossos. Mais um prato, decorado, tão detalhadamente decorado que faz enternecer a conversa. Trocam-se experiências, fala-se de como estão as coisas hoje, de como as podemos melhorar.

 

A música vai marcando o compasso da alegria. Ora “Another Lonely Day” dizia Ben Harper, ora “À minha Maneira” dos “Para Sempre” Xutos e Pontapés, ou ainda o agitado Samba do “País Tropical” de Jorge Ben Jor e a caliente Shakira que repetia sonoramente “Que Me Quedes Tu”. A música vai marcando o compasso da alegria.


Já espalhados pela casa, sob o calor do Verão, mas ainda concentrados na falta que todos fazem, os que estão e os que não estão, mesmo por estarem perto ou por estarem longe, as sobremesas despoletaram abraços. Recorda-se a sobremesa mal conseguida num encontro de família, arriscam-se ideias para aprimorar receitas, reafirmam-se juras de amor eterno para com o pão-de-ló de uma avó. Porque o açúcar adoça a vida.


Já é de noite. O almoço podia colar com o jantar. E as conversas já projectam o futuro. Quem vai e quem fica. Quem gosta e quem não gosta. Quem quer esperar e quem desespera. Quem tem esperança e quem vê o dia seguinte de uma só cor. Pelo canto do olho, alguém ali sentado, acompanhado unicamente pelos seus pensamentos e pelos seus, aqueles que não estão ali. Estendemos-lhe o olhar. A mão. O coração. O conforto. A amizade. O amor. A compreensão. A compaixão. Os níveis de ternura estabilizam. O cheiro do café, do café à antiga, que vai libertando o aroma aos poucos, desperta-nos. Rodeia-nos. Abraça-nos. Junta-nos novamente à mesa. Todos são os nossos.

 

Ana Filipa Amaro, em Luanda, Angola

 

 

Nota: Esta história, como perceberam, é escrita por quem está a viver fora do país. Por quem está longe dos seus e vai buscar, a momentos como o descrito, um pouco do calor e carinho de casa. Criam-se novas amizades, novas "famílias", onde todos são bem vindos, porque como a Ana Filipa diz, todos sãos os nossos. 

 

A Ana Filipa é colega e amiga do meu tio mais novo, que está a viver em Luanda há já 7 anos, e que foi o chef e anfitrião deste momento.

 

Quando li a história da Ana Filipa, senti-me imediatamente naquele almoço, senti de imediato a emoção destas pessoas que, estando longe dos seus, têm nestes momentos um recarregar de baterias para mais uma temporada longe da família. E agradeci-lhe, agradeci-lhe muito. Porque é isto que o Food, Family and Friends pretende ser: um espaço de partilha de histórias e bons momentos à volta da mesa, onde são criadas memórias e amizades que perduram.

 

Inês

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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