Histórias de um cozido (bem) à portuguesa

 

(Portuguese only)

 

A minha Mãe é professora e na altura do Carnaval tem sempre uns dias de férias. Consequentemente, lá vem ela por aí acima passar uns dias com a família, a Lisboa.

 

Entre conversas de outros almoços, alguém fala em cozido à portuguesa e a minha avó remata:

a Cristina vem cá no próximo fim de semana, se ela quiser faço um cozido!

 

Como se fosse preciso alguma desculpa!

 

Cá estou eu, sentada na cozinha, a ver a minha Mãe a minha Avó a discutirem o que entra primeiro na panela:

 

não Mãe, ponha mais couves que a malta gosta

 

Não ponha já as cenouras” “Então, mas as cenouras levam muito tempo a cozer!

 

Ponha tudo por secções, para depois sabermos onde as coisas estão

 

Quem nunca fez ou serviu um cozido não faz a mínima ideia do que isto significa, mas a verdade é que é todo um processo e cada passo é fundamental para o sucesso deste repasto. Aliás, eu diria ainda mais, fazer um Cozido à Portuguesa é toda uma tradição: do Algarve ao Norte do País são muitas as variações, mas cá em casa todos têm as suas preferências, dos enchidos às couves, do caldo ao arroz.

 

Tudo nas panelas! agora é esperar. Vai-se pondo a conversa em dia, sabendo as novidades, fazendo planos para outras festas.

 

A minha Avó vai levantando a tampa, controlando a fervura, os cheiros, o grau de cozedura.

 

Vai-se pondo a mesa, somos 8, faltam alguns.

 

(Também) a minha Mãe vai levantando a tampa, controlando a fervura, os cheiros, o grau de cozedura.

 

Vão-se preparando as bebidas: o gin dos Tios, o whisky da Tia.

 

Então? Nunca mais levantas fervura como deve de ser?” pergunta a Avó

 

É engraçado. Nunca me tinha colocado nesta posição de observador, que vai escrevendo e descrevendo ao vivo o que vê. Por acaso trouxe o computador, por acaso posso estar aqui sentada sem fazer nada e também por acaso lembrei-me de pegar no computador e ir escrevendo à medida que observo. “Por acaso”, já que há meses que não me dava para isto. É este o poder do Cozido.

 

Já rebentou?!” “Sim, há um que já rebentou

 

Falam de um chouriço de sangue e, segundo a minha avó, é por esta razão que ela compra sempre dois (esperta…). A minha Mãe diz que devem ser sempre cozidos em água fria. Por mim, está tudo bem. Inteiro ou desfeito, é preciso que ele lá esteja.

 

Para se entreter a minha Mãe vai arranjando petiscos …e, mal escrevo isto, ela diz:

 

bom vou parar de comer!

 

É típico e é tradição: refeições familiares desta envergadura enchem-nos até mais não, de comida e de satisfação.

 

Agora discutem-se timings perfeitos para se pôr o arroz a cozer. Está tudo controlado, aliás, eu diria ainda mais, está tudo enraizado.

 

Está na hora de ir para a mesa. No entanto, eu, que estive ali sentada a olhar, a apreciar, a respirar o momento, tenho a fazer a única tarefa que dou como minha em todo este processo, antes de finalmente me poder sentar a apreciar o dito:

 

Quem quer caldo?

 

2 a 3 folhas de hortelã em cada caneca, caldo até cima, sem entulho, que é assim que gostamos.

 

Agora sim, tudo pronto, tudo no devido lugar.

 

Boa viagem a todos

 

Passa-se então à etapa seguinte: discussão de resultados.

 

Aprova-se o chouriço de carne, discute-se a dureza da carne de vaca, a origem da farinheira, de que parte e que gordura deve ter a carne de vaca..

 

Ouvem-se uns suspiros de satisfação.

 

hummm

 

é alguém a dar nota 10 ao arroz.

 

Fazem-se entaladinhos com o toucinho e iniciam-se as histórias. Histórias de um passado que, apesar de longínquo, é ainda muito presente.

 

Há quase 40 anos atrás, sentava-me aí e a tua Avó fazia-me uma coisa que eu adorava.

 

Falas sempre nisso!

 

Pois falo!

 

Mas nós nunca ouvimos falar!

 

Então prossegue:

 

Era uma espécie de cozido: meio chispe, um chouriço de sangue, um nabo, uma cenoura e   couves. Chegado das aulas da faculdade, sentava-me aí (apontando) e deliciava-me com isso.”

 

E outra coisa que ela (a Mãe, neste caso, a minha Avó) fazia e que eu adorava e que ainda hoje adoro era um bife com esparguete.  Eu adorava esparguete, e ainda hoje adoro! Esparguete passado por azeite e alho, com uma malaguetazinha

 

e vão se ouvindo uns “hummm” e uns 2 ou 3 “eu também”.

 

Continua-se a degustação, e a aprovação de cada um dos ingredientes.

 

Fala-se naqueles que estão em falta.

 

Fala-se em novas aventuras e viagens gastronómicas. Todos querem ir. É sempre assim.

 

Continua-se a avaliação. Todos têm a sua opinião, todos têm os seus elementos preferidos.

 

Fazem-se pedidos de novos pratos: “Avó, o que era mesmo bom era umas favinhas

 

Inicia-se a 2ª volta.

 

Fazem-se pedidos de novos pratos: “uma dobradinha é que era

 

Inicia-se uma nova história. Sobre francesinhas e o melhor sitio onde as comer.

 

Já ninguém tem coragem para uma 3ª volta. Estômagos cheios, apetites satisfeitos.

 

Continua-se a falar de dobrada. De boa dobrada.

 

 

Já alguma vez pararam para realmente observar uma refeição em família? Já pararam para ouvir o que se diz, as conversas que vão surgindo, engatilhadas uma atrás das outras? Gravem-nas e oiçam-nas depois. É maravilhoso.

 

Durante os 46 minutos que gravei o nosso almoço, falámos de partilha, na maior parte do tempo. Partilha de experiências, de conhecimentos, sobretudo à volta de comida. Combinaram-se novas aventuras gastronómicas.

 

No fim deste almoço, fiquei a saber quais os elementos que nunca devem faltar num cozido. Descobri o melhor sitio em Lisboa para comer francesinha. Fiquei a saber qual o melhor sitio para comprar dobrada. Qual o melhor peixeiro ali nas redondezas, e os melhores peixes que costuma ter. Descobri novos peixes (galinhas do mar?), e as melhores maneiras de os comer. E ganhei um bilhete para uma viagem que será certamente memorável.

 

Por fim, já satisfeitos e ligeiramente nostálgicos, terminamos nas maleitas que todos começam a ter (artroses, tendinites e afins), que ninguém quer, mas que ninguém consegue controlar.

 

E isto, em apenas 2 ou 3 horas de um almoço, foi a vida a acontecer. Foram mais memórias a serem criadas, e tudo por causa de “a Cristina vem cá, temos de fazer cozido”.

 

Oh Cristina, tu vem cá é mais vezes!

 

Todos ansiámos pelo almoço, todos suspirámos enquanto o comemos, e todos partilhámos histórias e novidades.

 

É isto que é a vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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