Tudo o que aqui cresce, cresce feliz

Esta história não acontece à volta da mesa, mas sim à volta de um sítio. Um sítio especial, que foi construído pelo meu Avô Matias, para que as nossas raízes pudessem ganhar chão.


Raízes que nos ensinam a conhecer as árvores, as folhas e os frutos; a conhecer a terra, as sementes e o tempo de as semear.

 

Que nos ensinam a brincar com os cães, com os coelhos e os pintainhos; a saber o que são formigas agúdias e para que servem as ratoeiras de passarinhos. Sim, raízes que nos ensinam para onde vão esses passarinhos no final do dia, a lidar com o ciclo da natureza e com a morte do que nos rodeia. E que a vida é mesmo assim!

 

São raízes tão profundas que, mesmo que por vezes nos esqueçamos delas ou até finjamos que não existem, basta um cheiro a flor de laranjeira ou o vislumbre da terra castanha e barrenta como tijolos para nos fazer recuar a um passado distante, em que nada daquilo nos importava, mas no qual, sem sabermos, estavam a ser criados laços e memórias que jamais seriam esquecidos.


Estou a falar de uma quinta, a minha quinta, a Quinta Inês! É minha sim, tem o meu nome, foi construída pelo Avô, para a minha Avó, para o meu Pai e, tenho a certeza, para mim.


Lá cresci, pude ser selvagem, pude ser “do campo”, e feliz. 


Lá aprendi a passar o tempo sem precisar de ninguém, só dos cães e dos pássaros, das azeitonas e das alfarrobas, das pedras e dos pedaços de chão por riscar. Lá enfrentei cobras, fui picada por abelhas e aprendi a nadar. 


Lá fui criada e fui muito, muito feliz.


Foi lá também que fui muito mimada, talvez como não tenha sido em mais lado nenhum.
 

Isto porque a minha Avó sempre assegurou que, a cada fim de semana, o meu apetite saía de lá sempre satisfeito: ora por fazer o meu prato preferido (um franguinho, daqueles que andavam por ali pela Quinta, de tomatada com batatas fritas), ora por nunca me obrigar a comer ou provar nada que eu não quisesse.


Durante anos foi cozinhando, apesar das duras críticas de todos, um prato só para mim.
 

Durante anos não comi (ali, note-se) peixe cozido, porque era um dos pratos que até vómitos me dava.
 

Durante anos pude lambuzar-me com o molho dos passarinhos fritos, sem nunca ser obrigada a provar os ditos cujos. 
 

Enfim, fui muito mimada. E isto podia ter corrido muito mal, podia ter-me tornado numa daquelas pessoas estranhas que nada come, que nada prova… mas a minha Avó é que a sabia toda!
 

Porque foi também lá que aprendi, aos poucos e poucos, sem grandes insistências, a gostar de favas e da grande especialidade da Avó Riqueta: cozido de milhos com carnes e enchidos. 


Foi lá que aprendi a gostar de quase todos os peixes, a arranjá-los pachorrentamente, a grelhá-los, a saber quando virá-los, a sabê-los no ponto. 


Foi lá que descobri que o pão era feito de madrugada, pela minha Avó, na garagem, quando um dia a meio da noite vi luzes ao fundo do corredor e achei que estávamos a ser assaltados.


Foi lá que também aprendi a comer.


Os gostos treinam-se, desenvolvem-se e apuram-se. Tal como uma árvore, como uma flor ou como uma Quinta… é preciso pôr a semente, regá-la, adubá-la, cuidar dela, mas também dar-lhe tempo e deixá-la crescer ao seu ritmo.


A Avó é que a sabia toda…


Hoje em dia provo de tudo, e são raras as coisas que não aprecio. No fim, correu bem.

 

Foi nesta Quinta que cresci, que me fiz o que sou hoje, e só passados muitos anos é que percebi que tudo o que ali cresce, cresce feliz.


E isso faz-me querer voltar a passar tardes a andar de patins pelo terraço fora, sempre bem acompanhada pela bicharada. Passar tardes à espera, ansiosa, por aquela fatia de pão quente com marmelada e leite com chocolate. Passar tardes pelos campos, à procura do nada, simplesmente em casa.


Faz-me querer voltar o facto de saber que, sempre que regresso, há algo novo a despontar. E que desponta verdejante e viçoso, sem dúvidas do que se irá tornar. Tal e qual como eu, tal e qual como a própria Quinta. 


Mas a Natureza não o faz “sozinha”, nã senhor. Fá-lo porque foi muito acarinhada e porque houve quem dedicasse horas e horas aquelas terras (uma vida, na verdade) para que o que lá cresce, crescesse feliz.


Fá-lo porque continua a haver quem sonhe com as terras e com os animais, quem continue a lá ir plantar e regar. Fá-lo porque há quem continue a sonhar com a Quinta e quem não deixe as raízes morrer.


Não sou eu, mas sei que também o quero ser. E por isso vou continuar a crescer (a comer) e a experimentar (a provar) de tudo, lentamente, sem obrigações, para que eu possa continuar a crescer feliz. Tal e qual como a Quinta.


E no fim, de uma maneira ou de outra, tudo na vida se relaciona e tudo tem uma razão de ser. 


Se há coisa de que hoje em dia desconfio é de pessoas esquisitas, que não provam nada, que não gostam de nada (desculpem-me os mais sensíveis). Talvez esteja a precisar de passar mais tempo na Quinta.


Quem não é para comer, não é para trabalhar.

 

Dizia-o o meu Avô, há muito tempo atrás.
Di-lo o meu Pai, desde há uns anos para cá.
E vou dizê-lo eu, para que perdure.

 

 

 

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